É no impacto do olhar do outro que a ilusão cede e a verdade encontra passagem.
Por Magno Ribeiro
Há perguntas que não gritam. Apenas permanecem. Vão ficando ali, no canto dos dias, como poeira sobre um móvel que evitamos limpar. No começo, quase não se percebe. Mas basta um instante de silêncio mais honesto, uma pausa sem distrações, e lá está ela, inteira, esperando o momento certo de se impor.
A de hoje chegou assim. Num intervalo comum, no intervalo de mim. E, como tantas outras que já me visitaram antes, não veio sozinha nem superficial. Veio como parte de um movimento maior: o de tentar existir com alguma lucidez num mundo saturado de narrativas, externas e internas, onde todos contam histórias para sobreviver, e nós mesmos, não raro, nos contamos versões confortáveis para suportar quem somos.
Vivemos em um tempo em que se narra tudo: o cotidiano, as ideias, os afetos, as dores, e até a própria identidade. Contamos ao mundo quem somos, mas antes disso, contamos a nós mesmos. Inventamos uma narrativa onde somos justos, coerentes, conscientes. E quando essa história está bem montada, tentamos defendê-la com a convicção de quem guarda uma verdade.
Mas então vem o outro.
O que é que o outro, sem saber, me mostra e que eu finjo não ver em mim?
Essa pergunta me atravessou. E nela se desdobram outras. Porque o outro, mesmo sem intenção de confronto, nos revela. Basta um olhar mais direto, uma palavra crua, um silêncio que não se encaixa, e algo se desloca dentro de nós.
Talvez o que mais nos fira não seja a discordância do outro, mas sua exatidão. A forma como ele, por não estar preso à nossa narrativa, enxerga o que tentamos esconder até de nós mesmos.
Ele vê, por exemplo, onde chamamos de princípio o que, no fundo, é medo. Onde rotulamos de sensatez o que é, talvez, apenas conformismo. Onde disfarçamos vaidade de humildade.
Lembrei de Sun Tzu, estrategista chinês e autor de A Arte da Guerra. Ele escreveu: “Se você conhece o inimigo e conhece a si mesmo, não precisa temer o resultado de cem batalhas.”
Mas e quando só conhecemos a versão de nós mesmos que foi cuidadosamente construída? E quando o “inimigo”, que nem sempre é opositor, apenas nos mostra, com delicada crueldade, aquilo que nos recusamos a ver?
Talvez o que nos abale, de verdade, não seja o erro do outro, mas o acerto. A nitidez. A forma precisa com que somos lidos por alguém que não está preso à ficção que nos protege.
E então, o que desaba em nós não é o mundo, mas a ilusão. É a história.
É o disfarce.
E se existe algum caminho de crescimento verdadeiro, ele não começa com resistência, mas com rendição. Não diante de um inimigo, mas diante do real.
Porque às vezes, o que cai não é um sistema. É a máscara. É a narrativa que montamos para sobreviver… e que, um dia, já não sustenta mais o peso do que somos.
E quando isso acontece, quando a imagem cede, quando o papel descola, quando o olhar do outro nos atravessa, algo em nós se abre. Dói, sim. Confunde. Mas também limpa.
E talvez seja aí, no chão exposto da verdade, que algo mais real possa finalmente brotar. Não como resposta final, mas como espera madura. A espera por novas perguntas. Por olhares mais verdadeiros. Até que, enfim, consigamos nos ver, não como gostaríamos de ser, mas como realmente somos.
E, então, recomeçar.
· Magno Ribeiro é escritor, poeta e cronista. Potiguar, 60 anos, desenvolve uma escrita contemplativa, sensível e guiada por uma amizade íntima com as palavras. Suas reflexões transitam entre o cotidiano e a filosofia, buscando traduzir, com beleza e verdade, o que vive, sente e observa no mundo e em si mesmo.
